Os objetos misteriosos

Clotilde Tavares

Uma das características principais do conto maravilhoso é a presença do “objeto mágico”, que permite ao herói realizar tarefas difíceis, senão impossíveis. Vladimir Propp dedica todo um capítulo do seu livro “As Raízes Históricas do Conto Maravilhoso” ao que ele chama de “auxiliares mágicos”, mostrando que o conto atinge seu apogeu quando tais auxiliares – que podem ser animais ou objetos – são colocados à disposição do herói. As reminiscências me trazem a voz pausada de Severina de João Congo, uma das contadeiras de história da minha infância, que dizia: “Aí a velha entregou a Juvenal um fio do cabelo dela, um cabelo muito comprido, e disse que aquele cabelo tinha a força de mil correntes...”

São inúmeros os exemplos de objetos mágicos no conto maravilhoso. No folheto “História de João Moleque e a princesa Lindalva”, de João José da Silva, há uma touca mágica, presente de Nossa Senhora, que torna o herói invisível: “Quando chegou no jardim/ A mulher estava ainda/ Esperando a sua volta/ Com uma alegria infinda/ Ele chegou, ela deu-lhe/ Uma touca muito linda// E disse: esta touca tem/ Uma força benfazeja/ Pois ela em tua cabeça/ Não há diabo que te veja/ Pois ficarás invisível/ Vencerás qualquer peleja.”.

Já na história de “A Princesa Rosamunda ou a Morte do Gigante”, de José Pacheco, o gigante Aranol possui um espelho de prata que tem o poder de desencantar a princesa, transformada em pedra pelo poder da magia: “Sou eu, Aranol, o chefe/ E o que pretendes mais?/ Hidelbrando respondeu-lhe:/ És um gigante voraz/ Dá-me o espelho de prata/ Que desencanta os mortais.// Minha irmã, a princesinha/ Tão inocente e tão boa/ a bruxa Zoraina Preta/ Há dias petrificou-a/ Só o teu espelho faz/ Voltá-la à mesma pessoa.”

João Martins de Athayde refere-se a um anel que transporta a pessoa para qualquer lugar, em “Raquel e a fera Encantada”, que nada mais é do que mais uma versão do conto “A Bela e a Fera”: “Disse a voz: no travesseiro/ Encontrarás um anel/ Um objeto distinto/ Um amigo tão fiel/ Que livrará o teu pai/ Daquela morte cruel// Este anel é encantado/ A pessoa que tiver/ Com ele se livrará/ Dos obstáculos que houver/ Se transporta em dez minutos/ Para o local que quiser.”

Há um folheto onde esses objetos assumem condição de protagonistas: “Josimar e os 4 Objetos Misteriosos”, de Silvino Pereira da Silva. O herói, ao perseguir um veado com intenção de matá-lo, presencia a sua queda em um poço. Penalizado, resolve salvar o animal e deixá-lo livre. Este, em recompensa, lhe dá os quatro objetos que dão título à história. “Outra voz chegou e disse/ Ninguém mais lhe atrapalha/ Aqui quem chegar com fome/ Come muito e não trabalha/ Em paga do benefício/ Dou-te esta linda toalha// Josimar, esta toalha/ Pertence à alta magia/ Quando estiveres com fome/ Seja de noite ou de dia/ É bastante dizer: Põe-te/ Cheia de comedoria.”

E o folheto continua: “Apareceu outra voz/ Num som vibrante de moça/ Dizendo: Vós viverás/ Sem precisar fazer força/ Conduzindo com cuidado/ Esta linda e rica bolsa.// Ela é misteriosa/ E fará tua defesa/ No ato de precisão// Podes dizer com certeza/ Ó bolsa te enche para/ Acabar minha pobreza.// Assim outra voz lhe disse/ Recebes o meu conselho/ Aceitas esse objeto/ Um misterioso espelho/ É de grande utilidade/ Este belíssimo aparelho.// Sendo magnetizado/ Dos mais antigos sistemas/ Se vê as cenas dramáticas/ Das artistas de cinema/ Também vê-se a deusa Vênus/ Cantando lindos poemas.// Ele ouviu alguém dizer/ Josimar, a hora é esta/ Recebes esta rabeca/ Que faz parte da orquestra/ E prossigas na viagem/ Pois já terminou a festa.// Saibas que esta rabeca/ Tem o nome de vingança/ É um objeto mágico/ E de muita confiança/ Precisando tocar nela/ Quem estiver por perto dança.”

O conto maravilhoso, nas suas narrativas fantásticas e encantadoras, apresenta uma enorme variedade de objetos. Além dos já citados, há outros mais, uma infinidade deles. A pedra de fogo, que quando atritada “encandeia todo mundo” ou dela “surgem dez soldados armados até os dentes”. A varinha mágica, a bengala, o chicote, a espada, a água que devolve a vida e a luz dos olhos, a maçã envenenada, as botas de sete léguas, o porrete que sozinho luta e destrói os inimigos á força de pancadas, e... o pavão misterioso.

“O Pavão Misterioso”, folheto de cordel da autoria de José Camelo de Melo Rezende, é a história da Condessa Creuza, a moça mais bonita da Grécia, conservada pelo pai trancada desde a infância no mais alto quarto do sobrado.Uma vez no ano, a moça aparece por uma hora ao povo, que vem de longe, só para contemplar-lhe a beleza. Um retrato dela chega até a Turquia, onde mora Evangelista, que se apaixona pela bela figura da jovem. Dirigindo-se à Grécia, ele encomenda a um engenheiro um mecanismo alado – o Pavão Misterioso do título – a bordo do qual consegue chegar até o quarto da moça, raptando-a, depois de vários perigos e dificuldades.

“O Pavão Misterioso” é um folheto cujos “objetos misteriosos” possuem um quê de realidade, demonstrando uma vez mais que a magia é parceira e precursora da ciência. Na verdade, se pensarmos bem, o espelho de Josimar, “...magnetizado...(onde) se vê as cenas dramáticas das artistas de cinema...”, sendo inclusive chamado de “aparelho”, nada mais é do que as telas, monitores e écrans que estão presentes em nossa vida. N’O Pavão Misterioso está onipresente a tecnologia, a ciência, e uma exposição clara da mágica subjacente aos objetos. Pode-se dizer que, n’O Pavão, a Ciência assume o status da magia, realizando prodígios, apontando soluções, desenvolvendo estratégias.

O pavão do título não é a ave mágica e mítica que sai de dentro de um ovo para levar o herói no seu dorso até os confins do mundo. É nada mais do que um helicóptero, um aeroplano, que pousa e decola verticalmente. É inventado a pedido do herói pelo Dr. Edmundo, um “engenheiro profundo” que reside na “Rua dos Operários”. O poeta explica com riqueza de detalhes: “O grande artista Edmundo/ Desenhou nova invenção/ Fazendo um aeroplano/ De pequena dimensão/ Fabricado em alumínio/ Com importante armação.// Movido a motor elétrico/ Depósito de gasolina/ Com locomoção macia/ Que não fazia buzina/ A obra mais importante/ Que fez em sua oficina.// Tinha a cauda como leque/ As asas como um pavão/ Pescoço, cabeça e bico/ Alavanca, chave e botão/ Voava igualmente ao vento/ Para qualquer direção.” E é o próprio inventor, que não é um mágico ou uma bruxa, mas um inventor, um engenheiro, um artista, que termina a explicação: “Eu fiz um aeroplano/ Do formato de um pavão/ Que se arma e se desarma/ Comprimindo em um botão/ E carrega doze arrobas/ Três léguas acima do chão.” É o triunfo da técnica dando suporte às soluções miraculosas.

Além do pavão propriamente dito, há ainda no folheto a presença de uma serra, facilmente identificável com nossas atuais serras portáteis: “Edmundo ainda lhe deu/ Uma serra azougada/ Que serrava caibro e ripa/ Sem que fizesse zoada/ Tinha dentes de navalha/ De gume bem afiada.” Com ela, Evangelista, o herói, depois de aterrar silenciosamente com seu pavão-helicóptero na cumeeira do palácio do Conde, praticava uma abertura pela qual podia descer e contemplar a sua amada Creuza. Ao aparecer o feroz Conde, pai da moça, entrava em cena o outro objeto: “Deu-lhe um lenço enigmático/ Que quando Creuza gritava/ Chamando pelo pai dela/ Aí o moço passava/ Ele no nariz da moça / Com isso ela desmaiava!” Um lenço enigmático, meu caro leitor, que nada mais devia ser do que um lenço embebido em clorofórmio, anestésico e desmaiante.

Outras menções à tecnologia acontecem no folheto. Logo no início, a presença dos fotógrafos que se atropelam uns aos outros para tirar o retrato de Creuza e depois vendê-lo; a indelével “banha amarela” que a moça, meio a contragosto, mas obedecendo ao pai, passa na cabeça de Evangelista para que ele possa ser identificado depois; e mais detalhes do pavão: “Com pouco o conde acordou/ Viu a corda pendurada/ Na coberta do sobrado/ Distinguiu uma zoada/ E as lâmpadas do aparelho/ Mostrando luz variada.// E a gaita do pão/ Tocando com rouca voz...” As luzes, os faróis, e a buzina, ou a “gaita” do aparelho, em plena atividade, voando, elevando-se ao céu com o casal de amantes fugitivos. Até os aspectos técnicos da decolagem de um aparelho são mostrados, na visão dos soldados: “Os soldados da patrulha/ estavam de prontidão/ Um disse: Vem ver, Fulano/ Lá vai passando o pavão/ Veja como ele faz curva/ para tomar direção.” Finalmente, um telegrama substitui o “mensageiro” ou o “portador”, levando as notícias no final da história.

Vladimir Propp salienta que o uso do objeto mágico não diminui a glória do herói, sendo esse objeto a pura expressão de sua força e de seus talentos. Através deles, que são extensões dos sentidos e capacidades humanas, pode o herói conseguir seus objetivos, matar a fera e casar-se com a princesa, nessas histórias que encantaram nossa infância e que continuam encantando a vida adulta daqueles que mantêm a criança viva e brincante dentro de cada um.

Ítalo Calvino é quem afirma: “As fábulas são verdadeiras.” E continua: “São uma explicação geral da vida, nascida em tempos remotos e alimentada pela lenta ruminação das consciências camponesas até os nossos dias.” Os contos dão sentido às nossas experiências existenciais numa fase da vida em que não temos ainda o pensamento racional muito bem elaborado; eles nos fazem entender a dicotomia entre ricos e pobres, entre reis e vassalos, entre o amor e o sofrimento, entre a vida e a morte. E nos mostram, ainda segundo Calvino, “o esforço para libertar-se e autodeterminar-se como um dever elementar, junto ao de libertar os outros, ou melhor, não poder libertar-se sozinho, o libertar-se libertando.” Os contos são o “catálogo do destino” que pode caber a um homem e a uma mulher, entreabrindo o véu que recobre o mundo oculto e nos permitindo, mais do que qualquer outra coisa, vivenciar o mistério da nossa alma, reconhecer suas sombras e escuridões e integrá-las à luz, na busca da Paz e da Felicidade.

Clotilde Tavares é escritora, editora, autora dos livros “A Botija” e “A Agulha do Desejo” e estudiosa da cultura popular.

Este blog é dedicado a
LEANDRO GOMES DE BARROS
(1865-1918)
no 140. aniversário do seu nascimento.
19 de novembro de 2005

Poeta como Leandro
Inda o Brasil não criou
Por ser um dos escritores
Que mais livros registrou
Canções, não se sabe quantas
Foram seiscentas e tantas
As obras que publicou

No dia de sua morte
O céu mostrou-se azulado
No visual horizonte
Um círculo subdourado
Amostrava no poente
Que o poeta eminente
Já havia se transportado
João Mastrins do Athayde