É proibido morrer

08/12/2005
Jornal Hoje - Rede Globo

Uma proibição incomum para os moradores de Biritiba-Mirim, no interior de São Paulo. É que o prefeito fez um projeto proibindo as pessoas de morrer, de qualquer coisa.

E quem desrespeitar a lei, será punido. O projeto de lei é claro: fica proibido morrer em Biritiba-Mirim. Os munícipes deverão cuidar da saúde para não falecer.

O autor da idéia é o prefeito da cidade. Biritiba-Mirim fica a 80 quilômetros de São Paulo. Tem 28 mil habitantes e um problema: não tem mais onde enterrar quem morre.

“Quando tem um túmulo na família a gente enterra, quando não tem, fica difícil”, disse o coveiro.

No único cemitério, que já tem 95 anos, os túmulos estão colados uns aos outros. Até os corredores foram usados. Com a superlotação, a solução seria construir um outro. Seria...

A prefeitura tem um projeto para um novo cemitério na cidade, mas não consegue começar a obra. É 98% do município estão em área de proteção de mananciais, o que torna ilegal esse tipo de construção, segundo o Conama, o Conselho Nacional de Meio Ambiente.

O prefeito diz que não teve saída. O jeito foi proibir os moradores de morrer. “Como ele fazem uma lei sem vir no local, sem ver nossas necessidades e sem também propor pra gente qual o tempo você tem para adequar a cidade”, disse o prefeito Roberto Pereira da silva.

Na cidade, muitos não gostaram nada da idéia. “Emprego não tem, saúde não tem, não tem nada. Nem morrer você pode? É ridículo”, disse o desempregado Amarildo do Prado.

“Se eu morrer quero ficar por aqui, nem que seja encostado no gabinete do prefeito”, disse um morador.

“Ele vai ter que mudar de cidade. Um dia ele também vai morrer”, disse outro morador.

Enquanto a solução, ou seja, um novo cemitério não aparece, resta saber como será a punição para quem descumprir a lei, caso ela seja aprovada pela Câmara Municipal. Afinal, o parágrafo único não deixa dúvida: os infratores responderão pelos seus atos.

A população da cidade acha que é brincadeira, mas não é. A votação na Câmara Municipal está marcada pra semana que vem.

O Ministério do Meio Ambiente já autorizou a revisão da medida que impede a construção de cemitérios em áreas de mananciais. Como é um processo demorado, o Conama analisa medidas emergenciais para atender Biritiba-Mirim.

SEXTILHAS enviadas pelos leitores:

José Pedrosa (RN)

È PROIBIDO MORRER

Em Biritiba-Mirim,
no interior paulista,
o prefeito inventou
uma lei surrealista:
decidiu que quem morresse
pagava multa, à vista.

Desde já criou-se um clima
de grande inquietação;
a funerária faliu
por não vender um caixão;
o coveiro aposentou-se
por falta de ocupação.

Um certo dia a sogra
do prefeito adoeceu,
melhorava e piorava,
e sabe o que aconteceu?
depois desse vai-e-não-vai
a velha sobreviveu.

Para não pagar a multa
a velha não quis morrer,
deixando assim o prefeito
desesperado a sofrer,
pois uma gorda herança
deixava de receber.

O prefeito que sonhava
pela sogra colocar luto,
tomou firme decisão,
deixando o povo puto:
isentou a querida sogra
de todo e qualquer tributo.


Graco Medeiros (PE)

DE COMO RICARDÃO VAI ESPERAR...

Vou embora de Recife
Pra Biritiba-Mirim
Lá sou amigo do rei
Do prefeito ou coisa assim
Nunca mais eu bato as botas
Pois morrer é muito ruim.

Vou viver eternamente
Concorrer com Nosferato
Quem tiver raiva de mim
Vai ver que sou muito chato
Pras negas interessadas
Cada vez fico mais gato.

Aturo como lajedo
Montanha, pau e cimento
Não deixo mais a viuva
Viver do meu vencimento
Ricardão morre sentado
Filho da puta nojento!


Medeiros Braga

Não existe mais transporte
Pra quem queira viajar,
Os ônibus estão lotados,
Automóvel já não há,
Os aviões de carreira
Não param mais de voar.

Navios em mares, rios
Estão sendo pilotados,
Alternativos por terra
Caminham superlotados,
Até cavalos e jegues
Estão sendo utilizados.

É que em Biritiba-Mirim
Tá proibido morrer,
É um decreto do prefeito
E que vem para valer,
Infeliz do moribundo
Que deixe de obedecer.

É que está superlotado
O cemitério existente
E o órgão que controla
O nosso meio-ambiente
Proibiu a construção
De obra-por mais carente.

Estando assim impedida
Por completo, a construção
Fica proibido morrer,
Pois, não há outra opção,
Afetando Biritiba
Com a maior migração.


Flávio Dantas, O Poeta do Povão (RN)

"Não se pode nem morrer"

O poeta chega em verso
Assustado por demais,
Ao saber de uma notícia
Prá não esquecer jamais,
Pois em Biritiba-Mírim
Nem os defuntos tem paz.

Pois vejam que o prefeito
Sem saber o que fazer,
Com o cemitério cheio
Vendo à hora estremecer,
Quer aprovar uma Lei
Prá seu povo não morrer.

Com isso as funerárias
Suas portas vão fechar,
Com isso os seus coveiros
Não podem mais trabalhar,
E vendedores de túmulos
Não sei onde vão parar.

Nesse verso o registro
E a indignação,
Desse poeta matuto
Que transpira inspiração,
Chamado de Flávio Dantas
O Poeta do Povão.


José de Castro (RN)

Em Biritiba-Mirim,
Pode até adoecer,
Diz a lei do seu prefeito,
Mas não se pode morrer.
Quem morrer fica ao relento,
Deixa o urubu comer?

O cemitério tá cheio,
Tem morto pelo ladrão,
Mas o CONAMA proíbe
Uma nova construção.
E se o morto fizer greve,
Será que tem solução?

Essa lei é engraçada
E quer mexer com o além.
Por esse Brasil afora
Não se vivia tão bem,
E agora nem se pode
Bater as botas também.

O prefeito não percebe
Que essa lei é de mau gosto
E que o povo não merece
Passar por esse desgosto:
Vai ter defunto fedendo
E também pagando imposto.


Ivanilson França (RN)

Não existe Mossoró,
Natal ou Paramirim
Não existe uma cidade
que cresça tanto assim
Como a Cidade dos Vivos
A Biritiba-Mirim

Não vai chegar um mês
Ou até uma semana
Ela vai ficar maior
E vai virar profana
pois onde morre ninguém
Só atrai gente sacana

Pode até ter gente boa
Muito mais cabra de peia
Os homens só vão bulir
Somente nas coisa alheia
Ninguém vai lá morrer
Gente bonita ou feia

Trepada sem camisinha
Polícia sem atirar
Mulher traindo homem
Esse não pode matar
Pois prá ninguém morrer
De quê adianta atirar?

Pois eu tô desconfiado
E o prefeito de lá
Ficou todo atrapalhado
Na hora de assinar
Essa tal de Lei Vivente
Acho que deu azar

Se lá todo mundo vai
Viver junto aos seus
Fico no pensamento
Diferente dos ateus
Será que esse prefeito
Pediu licença a Deus?


Dilsom Barros (PB)

Quem vai cobrar a multa?

Saiba que é proibido
Por leis Ambientais
Abrir novos cemitérios
Em áreas Mananciais
Por isso surgiu a lei:
Não se pode Morrer mais

Parece coisa de doido
Uma lei dessas Assim
Ninguém ficou pra semente
Teremos um mesmo fim
E isso vale também
Em Biritiba-Mirim

Quando lá morrer um mói
Veremos o que Resulta
Se o fiscal do prefeito
Vai fazer uma Consulta
Lá no céu ou no inferno
Pra cobrar a dita Multa.

Este blog é dedicado a
LEANDRO GOMES DE BARROS
(1865-1918)
no 140. aniversário do seu nascimento.
19 de novembro de 2005

Poeta como Leandro
Inda o Brasil não criou
Por ser um dos escritores
Que mais livros registrou
Canções, não se sabe quantas
Foram seiscentas e tantas
As obras que publicou

No dia de sua morte
O céu mostrou-se azulado
No visual horizonte
Um círculo subdourado
Amostrava no poente
Que o poeta eminente
Já havia se transportado

João Martins de Athayde