Pinto Velho do Monteiro,

a cascavel do repente

Artigo de Clotide Tavares, publicado n’A União, em 30/08/2006.

Nesta semana, o projeto Paraíba Com Memória está na cidade de Monteiro, em pleno Cariri Paraibano, homenageando aquele que foi um dos mais perfeitos repentistas do Nordeste: Severino Pinto, conhecido como Pinto do Monteiro, e cognominado “A Cascavel do Repente”.

O título já dá suficientes informações sobre o tipo de repentista que Pinto era: ágil, certeiro, veloz, e também venenoso e mortífero, deixando o oponente mudo e sem resposta, num tempo em que a cantoria de viola não havia ainda passado por todo esse processo de glamourização que passa hoje, onde a performance visual dos cantadores, com bela voz, belas toadas e bem ensaiados baiões de viola diminuem o espaço do improviso, do repente, do relâmpago criativo que é a principal beleza das cantorias tradicionais nordestinas.

Pinto era de outro tempo. Vi-o cantar muitas vezes, com Lourival Batista, ou com o velho Manoel Serrador, ou com João Furiba, sempre fazendo participações especiais em congressos de violeiros, cantando hors-concurs porque com seus quase oitenta anos não concorria mais: era uma lenda viva do repente.

Era pequeno, seco, mirrado, o rosto escanhoado, cabelo curto, paletó e calça brancos, camisa aberta no colarinho, sem gravata. Usava bengala, e enchia de cotoveladas irritadas qualquer um que quisesse apoiar-lhe o braço enquanto andava, ou subia um degrau. Era extremamente piadista. Muitas vezes, conversando com ele, eu sentia que ele ia soltar uma piada, geralmente fescenina. Ele parava, me olhava assim meio de lado com um riso moleque e soltava o chiste. Depois das risadas, ele aproximava o rosto e dizia: “Chateou-se não, não?” E eu: “Que nada, Pinto! Eu vou lá me chatear com você?” E ele, segurando meu braço com força, com sua garrinha de velho: “Se eu fosse novo outra vez você ia ver uma coisa!” Esse era o velho Pinto, aos oitenta anos e cantando a jovem pesquisadora de gravador sempre ligado, ao seu lado, nos idos da década de 1970.

Tenho gravações memoráveis de Pinto, que penso serem únicas pois apenas eu estava gravando na ocasião. Uma das melhores é aquela onde ele e Lourival Batista, em 1977, cantaram no palacete de Cabo Branco para José Américo de Almeida, já doente e acamado. Esse material está sendo trabalhado para publicação. Em Monteiro a UEPB inaugurou o Campus com o nome do poeta, numa gentil e apropriada homenagem; e eu estou naquela cidade a partir de hoje ministrando uma oficina de cordel, feliz também por respirar o ar poético daquela terra, mãe de um dos maiores cantadores de todos os tempos: Pinto do Monteiro, a Cascavel do Repente.

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Este blog é dedicado a
LEANDRO GOMES DE BARROS
(1865-1918)
no 140. aniversário do seu nascimento.
19 de novembro de 2005

Poeta como Leandro
Inda o Brasil não criou
Por ser um dos escritores
Que mais livros registrou
Canções, não se sabe quantas
Foram seiscentas e tantas
As obras que publicou

No dia de sua morte
O céu mostrou-se azulado
No visual horizonte
Um círculo subdourado
Amostrava no poente
Que o poeta eminente
Já havia se transportado
João Mastrins do Athayde